quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Super poderes

Estou muito feliz. Descobri que tenho super poderes. Consigo tornar-me completamente invisível e a minha voz sai numa frequência inaudível a humanos, só os animais me ouvem. Fantástico não é? 
Fiquei tão surpreendida que resolvi perguntar ao Universo qual o motivo para esta transformação. Teria sido eu escolhida para um destino heróico, combatendo as forças do mal? Seria necessário adoptar uma identidade secreta, escolher um fatinho como o da Catwoman? 
A resposta foi surpreendente. Parece que afinal os meus super poderes decorrem apenas do facto de ser mulher e mãe. Guardei o fato e as ideias heróicas na gaveta onde dorme o meu Leão domesticado e fui fazer o jantar. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Mimi

Tenho uma gata preta chamada Mimi. É a mais velha dos cinco gatos que vivem connosco. A Mimi tem um comportamento que me perturba e me fascina, a tal ponto que tenho gasto muitas horas a tentar, mais do que entendê-lo, perceber porque é que o comportamento dela mexe tanto comigo. 

Assim que o tempo aquece a Mimi vai progressivamente dando passeios mais longos até que, lá para o pino do Verão, pode ficar fora de casa vários dias, aparecendo de vez em quando apenas para comer. Uma vez que a fome é saciada, sai rapidamente pelo quintal e desaparece. Estas ausências têm consequências. Os outros gatos lá de casa passam a ocupar os lugares "exclusivos" da matriarca Mimi e, parece-me a mim, reorganizam-se como grupo, estabelecendo novas hierarquias e regras. Ao mesmo tempo que isto acontece, a Mimi vai-se tornando cada vez mais "uma estranha". Entra em casa a medo, perdendo toda a sua pose de líder, chegando por vezes a ser atacada pelos outros que parecem deixar de a reconhecer. Mesmo connosco humanos, a Mimi altera totalmente o seu comportamento, não deixando sequer que lhe toquemos.

Terminado o Verão e à medida que a temperatura vai descendo, a Mimi vai aparecendo com mais frequência. Começa por vir comer todos os dias ao final do dia, entrando e saindo sorrateiramente. Passado algum tempo surge também pela manhã, rosnando aos outros gatos, iniciando assim a sua retoma do poder matriarcal. Assim que o frio aperta, as vindas a casa deixam de ser só para comer e passam a incluir sestas debaixo da mesa da cozinha. Nesta fase, os outros gatos já não tentam atacá-la, passam ao longe afastando-se assim que ela começa a rosnar. Mais uns dias e a Mimi começa a aventurar-se por outras divisões da casa, ainda fugidia mas já permitindo festas. Quando nós humanos "abusamos" nas festas ou tentamos pegar-lhe ao colo, volta a fugir. Mas lentamente, dia após dia, a Mimi volta a ser senhora da casa, a deitar-se ao meu lado no sofá perto da lareira, a dormir connosco aos pés da cama, a pedir festas com o seu miar de passarinho. Quando a Primavera regressa e o calor se instala, todo este ciclo recomeça...

A liberdade em pleno. É isto que a Mimi e o seu ciclo me mostram. A Mimi segue os seus instintos e por eles, abdica de tudo, num total desapego ao conforto, ao poder e à família de que de faz parte. Quando regressa, tudo está por conquistar e ela, pacientemente, passo a passo, reconquista cada pedaço da sua vida doméstica, apenas para voltar a abdicar de tudo quando a Natureza a chama. 

Seria eu capaz de abdicar de tudo o que conquistei para seguir a voz da minha liberdade? Teria eu a humildade de regressar e a partir do zero voltar a construir o meu lugar? A Mimi deixa-me a pensar na quantidade de vezes que me travo por receio de perder, sem me aperceber que o essencial nunca fica perdido e que tudo o resto pode ser reconquistado, com humildade e paciência. A Mimi representa a liberdade, a humildade e o desapego que chocam de frente com o meu medo, o meu orgulho e o meu apego. É este o nosso espelho, e por isso eu receio tanto por ela, porque na realidade receio por mim, por tudo o que ainda me trava e me impede de ser plenamente livre.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Aos meus guerreiros

Não é fácil ser homem. Parece-me que, mesmo tudo o que apontamos vulgarmente como facilidades, "presentes" oferecidos aos homens nesta vivência patriarcal, são na verdade grandes armadilhas que prendem a maioria dos homens a uma existência estagnada, na qual o que é nunca chega a ser realmente. 

Na opressão, as mulheres apuraram estratégias de luta e libertação. Ofuscados no engano do poder e da força, os homens deixaram-se ficar num conforto dormente, empurrando medos, anseios e desejos para um fundo tão fundo que se torna tão inatingível como as lágrimas que aprenderam a conter. Assumir quem realmente são, libertar-se dos papéis e comportamentos estereotipados, arriscar ser alvo de crítica, passar a fazer parte duma qualquer minoria e não da maioria, são ideias que afastam grande parte dos homens de realizar qualquer tipo de busca interna, só por medo do que possam encontrar nos confins de si mesmos. 

Mas não é assim com todos os homens. Existem por aí verdadeiros guerreiros que arriscam sair da imensa zona de conforto criada à sua volta, dessa gaiola dourada infantilizada e embrutecida. Existem por aí homens com "H" grande à procura de si mesmos, num compromisso honrado e honesto. Assisto emocionada a estes processos masculinos, tão belos quanto dolorosos. A cada passo, a cada libertação, vejo surgir a verdadeira força, o verdadeiro poder masculino que nunca está onde nos disseram que estaria. Está na lágrima, no abraço sentido, no sorriso que ainda guarda em si a criança, na simplicidade e no pragmatismo de pensamento e de acção. Está no assumir da fraqueza e da fragilidade, na sensibilidade vivida sem freios. A força do homem está na liberdade interior, na consciência que a liberdade que lhe foi oferecida é uma ilusão. 

Tenho a honra de ter alguns destes guerreiros na minha vida. E se as mulheres são para mim uma fonte constante de conhecimento e sabedoria, estes guerreiros elevaram o masculino dentro de mim, porque me mostraram a sua verdade. Foi com estes guerreiros que aprendi sobre a ilusão da dualidade, porque são eles que me mostram constantemente que somos tudo e não apenas partes, metades isoladas. 

A todos eles, e especialmente ao guerreiro que tenho ao meu lado há 16 anos, o meu profundo agradecimento. Admiro-vos muito e tenho cada vez mais consciência da importância dos caminhos que têm desbravado e que ajudarão outros a caminhar. Meus mestres, meus irmãos, o meu eterno amor. 



Fotografia Rute Violante

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Histórias

Ter um filho é acto de fé e a gravidez é o tempo em que essa fé se expressa de forma mais intensa. Amamos alguém que não vemos, acreditamos que tudo correrá bem sem fazermos a mínima ideia do que irá acontecer. A fé traz esperança, alegria e  a tranquilidade de quem confia apenas no Amor. É esta a recordação que guardamos da gravidez, esse estado abençoado em que fé nos basta e nos faz resplandecer. 

Mas uma gravidez tem dentro de si muitas horas, muitos dias e muitas noites. Tem dentro de si muitas crises de fé. Dúvidas, tristezas, desesperos. E alguma solidão... Estes sentimentos trazem desconforto, ainda mais a uma grávida, que sente sempre alguma pressão para se manter num "estado de graça". Salvo em casos em que a tristeza toma conta de tudo, estes sentimentos "menos bons" são naturais e fazem parte deste processo grandioso. Aliás, sem eles, não seria um processo grandioso!

Nós humanos construímos histórias sobre tudo. Quanto mais grandiosa a história, mais caímos na tentação de "apagar" aquilo que, tradicionalmente consideramos negativo, mesquinho ou sujo. As grandes histórias são "limpas". E por isso não servem para nada.

As verdadeiras histórias, aquelas que cumprem o seu papel, são as que nos mostram as várias faces de um processo. São as que tratam as emoções humanas sem lhes atribuir julgamentos, na consciência que todas elas contribuem para o "final feliz" que esperamos. As verdadeiras histórias aproximam-nos uns dos outros, tornam-nos a todos heróis.

Nós mulheres, temos que reaprender a contar histórias umas às outras. Histórias que nos aproximem e nos curem. Histórias de verdade.



Fotografia Rute Violante



sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Tens dogmas para a troca?

No tempo em que eu fui bebé, diziam os dogmas modernos de então que os bebés deviam ser disciplinados de imediato, cumprindo horários de amamentação e sonos. Que muito cedo deviam ter o seu espaço para ganharem autonomia e não se tornarem medrosos ou demasiadamente dependentes. "A mãe não é escrava do bebé", disse o médico à minha mãe quando ela se queixou da minha indisciplina de recém-nascida com a hora de comer. A minha mãe seguiu os conselhos do Dr. e eu tornei-me, ao que parece, um bebé muito disciplinado, depois de umas quantas noites a berrar. À minha avó tudo aquilo lhe parecia absurdo porque os dogmas do tempo dela diziam que os bebés deviam ser consolados ao colo sempre que choravam porque muito choro causava hérnias e outras coisas perigosas.
Se analisarmos os contextos da minha mãe da minha avó, estas diferentes abordagens encaixam perfeitamente nos "seus tempos". Cada tempo com a sua verdade.

Depois de três filhos tornou-se bastante óbvio para mim que não há verdades universais ou dogmas nesta coisa de cuidar e educar. Cada um de nós é um ser único, desde o primeiro momento. Todos os bebés precisam de ser alimentados, limpos e nutridos com amor e calor humano. É a única coisa comum a todos, porque mesmo essas necessidades básicas são expressas de forma única por cada pequeno ser.  

Tal como os bebés, também cada mãe é um ser único e impermanente. Eu não sou a mesma pessoa que era quando fui mãe pela primeira vez aos 29 anos. Muita coisa em mim mudou. Além do mais, cada filho que chega traz consigo o dom de mexer com a estrutura dos pais, provocando reacções, e se os pais forem espertos, mudança e evolução. Assim, também somos mães e pais diferentes para filhos diferentes. Por isso, não compreendo em relação a este assunto outra verdade universal que não a do Amor. Dogmas não cabem aqui. No entanto, eles continuam por aí. Em 2016...

Vejamos o exemplo da amamentação. Compreendo que se sensibilize as mães para a importância da amamentação mas não compreendo que se force essa situação para lá do razoável, que é como quem diz, à custa da culpabilização de mães inseguras com as hormonas aos saltos. Assisti a várias cenas destas na maternidade, sobretudo com mães de primeira viagem. Parece-me que o bebé precisa mais de uma mãe segura, confortável e feliz do que de leite materno. Mas o dogma da amamentação não acaba na maternidade nem se limita aos profissionais de saúde. A cena "new age" (à falta de melhor designação), da qual se esperaria (ou esperava eu) uma abordagem anti-dogma, faz justamente o contrário. Quem não andar com o puto num pano a mamar até aos dois anos não é mãe que se apresente. Todos os meus filhos mamaram. Acontece que lá para os 3, 4 meses do bebé, o meu leite abundante deixa de o ser. Sempre me pareceu que esta reacção do meu corpo seguia um desejo interno de me tornar independente, de voltar a ter as minhas mamas para mim e para outras funções que não as da maternidade. Culpei-me muitas vezes por isto, muito à conta dos dogmas e dos franzires de sobrancelha, "secou, como assim?". Depois percebi que esta "estratégia" do meu corpo me tornava melhor mãe. Que essa libertação da amamentação me devolvia de alguma forma à minha individualidade e que isso parece ser determinante para mim, mas sobretudo, determinante para o sucesso de todo um processo familiar bastante complexo que é chegada e a integração de um novo bebé na família. Não sei como vai ser da próxima vez e não estou nada preocupada com isso. Sou um ser humano e tenho as minhas limitações. E é nessa condição que me torno mãe, aliás é mesmo essa condição que me permite ser mãe. Não perfeita, mas a melhor que consigo ser. 










quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Saudades do período, como assim?

Pela primeira vez tenho saudades da minha menstruação. Foi preciso chegar à quarta gravidez para isto acontecer. 
Mas como assim? 
Desde o nascimento do meu terceiro filho que me dediquei, com concentração e afinco, a estudar o meu ciclo menstrual. Abandonei os métodos contraceptivos hormonais e, pela primeira vez, escutei o meu ciclo para através dele perceber mais sobre mim e sobre o que é isto de ser mulher. Abandonei os pensos e os tampões e passei a utilizar o copo menstrual que me trouxe uma relação mais profunda e saudável com o meu sangue. 
Durante a minha terceira gravidez chegou-me muita informação sobre a menstruação e o ciclo menstrual, e de como os condicionamentos sociais e culturais da nossa sociedade nos afastam de uma relação saudável com os nossos ciclos. O facto de ter duas filhas a aproximarem-se rapidamente da adolescência, aumentou ainda mais o meu interesse porque senti que lhes tinha que passar outro tipo de informação e de sentir sobre a menstruação. Incomoda-me a ladaínha que nós mulheres vamos passando umas às outras, realçando os incómodos da menstruação ao mesmo tempo que reforçamos a necessidade de agirmos sempre como se ela não existisse, como se fosse uma fraqueza a esconder para estarmos sempre operacionais, como os homens. 
Nós mulheres, tal como a Lua, funcionamos por ciclos. Cada fase desse ciclo tem características próprias, e ao ignorá-las, basicamente fugimos da nossa mais íntima natureza. Fugimos de nós próprias. Não foi sempre assim e não é assim em todos os lugares do mundo. Mas aqui e agora é. Já o disse e volto a dizer, sou uma feminista convicta. No entanto, para mim o feminismo representa a luta pela igualdade de género em termos cívicos. Exactamente por ser feminista, defendo que é um direito das mulheres viverem a sua condição de mulheres, em pleno. E isso não é possível sem esta consciência do ciclo, até porque cada mulher que se permite conhecer e amar o seu ciclo será forçosamente uma mulher mais sábia, mas sobretudo, mais feliz. E falo por experiência própria.
Nos quase quatro anos que separaram a minha terceira gravidez da actual, o estudo do meu ciclo menstrual, a abertura a outras perspectivas sobre a menstruação e o "maldito" TPM mudaram-me profundamente. Ganhei uma fonte inesgotável auto-conhecimento, ganhei qualidade de vida e, consequentemente, dei mais qualidade às minhas relações. Tal como observamos nas fases lunares, também o ciclo de cada mulher encerra fases de expansão e de recolhimento. Cada ciclo representa um processo de nascimento, crescimento, envelhecimento, morte e renascimento. A inconstância atribuída às mulheres resulta da vivência deste ciclo e das diferentes energias que cada fase potencia. Ao tomar consciência disto, a mulher passa a poder utilizar essas energias a seu favor, ou seja, torna-se capaz de materializar todo este potencial na sua vida. 
 A única e verdadeira dificuldade que encontrei no meu estudo vem do exterior. A nossa sociedade funciona num pressuposto de constância absurdamente ilusório (nem os homens possuem tal constância). A nossa organização sócio-económica é implacável e artificial e desrespeita a nossa natureza. É um facto, não apenas para as mulheres mas para Tod@s! Mas há muito que podemos fazer. Eu comecei por "contaminar" o meu companheiro com o que ia aprendendo. Ao partilhar com ele o meu estudo, também ele recebeu conhecimento e ferramentas para lidar com o tal "mistério feminino". Assim, reconhecendo ele também as minhas fases, foi possível ajustarmos alguns aspectos da vida quotidiana, nomeadamente o ser-me mais fácil isolar-me um pouco ou ter algum tempo só para mim quando o ciclo me pede recolhimento. Julgo que para as mulheres que estão numa relação, esta partilha é essencial. 
No que diz respeito ao trabalho, ambiente no qual essa exigência de constância se revela com mais intensidade, não sendo fácil, pode ser possível planear determinadas tarefas e actividades para momentos que julgamos mais propícios. Nem sempre isto é possível e muitas vezes é mesmo impossível. Cabe às mulheres que retornam à consciência e que gozam de alguma liberdade laboral introduzir mudanças e estimular a reflexão colectiva para que o mundo vá mudando de forma positiva. No entanto, o que observo na maioria das mulheres cujas funções poderiam permitir a introdução de mudanças a este e a outros níveis, é que actuam numa lógica masculina, buscando o "sucesso" e o "poder" numa corrida desenfreada na qual todos estes aspectos do feminino são abafados. 
Temos ainda um longo caminho mas, se olharmos com atenção, veremos que cada vez mais mulheres buscam o retorno a este equilíbrio perdido. Por isso é para mim tão importante educar as minhas filhas noutra lógica que não a vigente. É o meu plano pessoal para mudar o mundo, um plano para cem anos!

confissões de uma feminista #1

Quando os senhores das operadoras me batem à porta e estou sem tempo ou paciência, faço cara de parva e digo: "O meu marido é que percebe dessas coisas..."

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A grávida velha

Entrei no consultório e o médico disse à assistente: - "Esta senhora é uma grávida velha que vem buscar umas credenciais". Não contive uma enorme gargalhada que o médico pareceu ignorar e que deixou a assistente ainda mais envergonhada do que já estava. Quando saí do Centro de Saúde vinha a pensar que deveria ter reagido de outra forma, devia ter mostrado ao Sr. Dr. que aquilo não se diz. Assim talvez não repetisse a "gracinha" com outras mulheres. Sim, era isso que era "suposto" ter acontecido. Verdadeiramente interessante foi descobrir que a questão central deste episódio não era a insensibilidade tacanha do médico ou a passividade envergonhada da assistente mas o facto daquela frase não me ter suscitado qualquer outra resposta a não ser uma gargalhada. Entendi a dureza das palavras mas não as senti dentro de mim, não me tocaram, pura e simplesmente. Não me senti velha, nem ridícula, nem diminuída ou humilhada. Não me enchi de raiva pelo médico, porque me pareceu ele velho e diminuído na sua insensibilidade. Soltei mentalmente um grande "Uau!" e lembrei-me que alguém muito querido me tinha dito um dia, "a mudança interior acontece silenciosamente. Quando deres por ti já mudaste!"

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um plano para 100 anos

Parece que há um provérbio chinês (ou será um provérbio do facebook? Hoje em dia nunca sabemos...) que diz qualquer coisa assim: "Se o seu plano for para um ano, plante arroz! Se o seu plano for para 10 anos, plante árvores! Se o seu plano for para 100 anos, eduque pessoas!" Eu cá nunca gostei muitos de planos, o verbo planear desfaz-se demasiadas vezes perante a realidade. Planear trabalho ou tarefas faz-me sentido, planear a vida nem por isso. Acontece que chego aos 42 anos com uma casa, um marido, três filhos, cinco gatos, uma cadela, uma tartaruga, um jardim e um vazio enorme sobre a direcção da minha vida profissional. Um vazio que me levou a um moderno "burnout", traduzido numa baixa de quase um mês, recheada a ansiolíticos e afins. Quando o descanso me permitiu voltar a reflectir com clareza, percebi que não fazia a mínima ideia do que fazer. Se calhar por ser Verão, essa enorme página em branco que constantemente me surgia não me inquietou muito. Estava segura que a leveza das férias me iria trazer algum sinal, alguma pista. Por outro lado, tornava-se cada vez mais claro que o que me define pouco tem a ver com o que faço para por comida na mesa. Mas o que me define afinal? Um dia atrás do outro e os meus pensamentos eram subitamente interrompidos ora por uma ligeira náusea, ora por uma sonolência desmedida, ora por dores e moinhas já bem conhecidas. A todas as minhas questões e inquietações, o Universo devolve-me uma só resposta: o meu quarto filho vem aí. O meu plano afinal está traçado. É longo e ambicioso mas não o trocava por nenhum outro!