Desta vez não queria epidural. Tudo o mais natural possível. Até conseguimos forma da hipnoterapeuta estar comigo na sala de partos. Ia ser mais tranquilo, afinal já passámos por isto três vezes, será com certeza mais fácil. As sessões de hipnoterapia partilhadas com o pai no caso de ser necessária a sua intervenção. Tudo me dava uma imensa confiança e segurança. Era desta vez que ia ter o parto que imaginei. O meu quarto filho viria ao mundo natural e tranquilamente, sem drogas nem ventosas e eu ia viver aquele processo em absoluta concentração, sem químicos, medos ou crises de fé. Onze meses depois penso como fui ingénua.
Com 42 anos e diabetes gestacionais, ganhei o carimbo de gravidez de risco e a sentença médica que o bebé não podia ficar nem mais um dia dentro de mim após as 40 semanas. Tal como todos os meus bebés, também este parecia não ter pressa alguma de vir cá para fora. Os dias passavam e os sinais de que o parto se aproximava iam surgindo, mas muito lentamente, como sempre acontece comigo. No dia combinado para ir ter com a médica à maternidade estava animada, porque sentia mesmo que o trabalho de parto já se tinha iniciado.
"Sim, está tudo a andar muito bem. Isto com um pouco de oxitocina no soro vai ser um instante!". Quando ouvi "oxitocina no soro" devo ter feito uma expressão de desconfiança que a médica captou, e por isso atalhou, "a não ser que queira ir para casa. No seu caso não aconselho mas você é que sabe." Era este o momento. A maternidade estava cheia naquele dia, a médica percebeu que o parto estava perto e deu-me a janela de oportunidade que eu precisava para cumprir o nosso plano. Com certeza voltaria 24 ou 48 horas depois, já em trabalho de parto avançado e seria tudo como imaginámos. Mas... não fui capaz. Cedi ao cansaço, ao peso já quase insuportável, às dores de pernas e de costas, cedi à enorme vontade de ter o meu bebé nos meus braços, ao facto de já estar ali com a mala, com a bata vestida, tudo pronto. Comecei logo a justificar mentalmente a minha decisão, "um pouco de oxitocina no soro não é nada de mais, isto já está a acontecer, nem vou dar por isso:" Esqueci tudo o que sabia e que já tinha visto nos partos induzidos. "É só um pouco, não há-de ser nada." Olhei para o meu marido, interrogando-o com o olhar. "Fazemos como quiseres, como sentires", foi a resposta. "Então ficamos".
A partir do momento em que cedi, o conflito interno instalou-se. E uma vez instalado, tirou-me a calma e o foco. Os químicos no soro passavam para o meu corpo que parecia claramente estar a rejeitar a minha decisão. Vomitei muito, fiquei numa espécie de náusea profunda que não desaparecia. A noite caía e nessa altura fomos informados que, como eu ainda estava na sala de indução, o meu marido não podia ficar comigo a partir das 20h. Só voltaríamos a estar juntos quando eu passasse para o bloco de partos. O mesmo era válido para a terapeuta. Sem drama, está tudo bem, ele assim passa em casa para ver a prole e depois volta, temos tempo. Assim que o Pedro saiu as águas rebentaram e a partir desse momento as contracções que ainda mal sentia tornaram-se muito fortes. Na sala de indução estava eu e uma miúda que devia ter uns 18 ou 19 anos. Achei que o bebé ia nascer, sentia a pressão da cabeça dele e as contracções eram cada vez mais intensas e com poucos minutos de intervalo. Chamei a enfermeira, enquanto rastejava pela cama à procura de uma posição qualquer que me desse algum alívio. Olhei para o lado e vi os olhos de pânico da minha "colega". Disse-lhe, "não tenhas medo, não é sempre assim". Ia continuar mas já não consegui dizer mais nada. Finalmente a enfermeira apareceu. "Ai que a cabeça dele está mesmo aqui mas você não tem dilatação de jeito, só 4 dedos. Já está com vontade de fazer força não é? Pois, mas não pode mesmo, senão temos um problema sério. Vai ter aguentar." Mal sabia eu que essa frase seria repetida vezes sem conta nessa noite de Abril.
Em vão tentei concentrar-me e usar as ferramentas que a hipnoterapia me tinha dado. Para além das dores, a voz que gritava dentro da minha cabeça "foste fraca, estragaste tudo!" era ensurdecedora e paralisante. A miúda deitada na cama ao lado, imóvel, muda. O tempo parecia ter parado e só existia dor e desespero. Nunca me senti tão só. A enfermeira aparecia de quando em vez apenas para me dizer que tinha que aguentar, que o bloco estava cheio, que eu ainda não tinha dilatação suficiente. "Tem que aguentar". O meu marido, a terapeuta e o seu marido, amigos do peito, todos os 3 já na sala de espera e eu absolutamente só. Quando finalmente apareceram com uma cadeira de rodas para me levar para o bloco de partos, eu já estava derrotada. Assim que vi o meu Pedro e os nossos amigos desfiz-me em lágrimas. "Estraguei tudo...".
Entrámos no bloco, o Pedro comigo, um alívio enorme por já não estar sozinha e o caos à nossa volta. A parteira chefe quando nos viu entrar gritou, "Outra? Eu já disse que não temos espaço!". Eu a torcer-me na cadeira com dores enquanto as enfermeiras discutiam sobre o meu destino naquela noite. O meu parto natural e tranquilo era nesta altura apenas uma miragem. Toda eu era medo e dor.
Quando a parteira me veio examinar disse-me que tinha mesmo que me acalmar. O bebé estava muito descido, estava "mesmo ali à porta", mas a dilatação não passava dos quatro dedos. Disse-lhe que tinha mudado de ideias, que não aguentava mais aquelas dores, que queria epidural. Você está carregada de adrenalina e ela corta o efeito da oxitocina. Tem mesmo que se acalmar até porque para levar a epidural precisa de ter mais dilatação (na realidade, quer eu quer todas as outras mulheres naquele bloco, esperamos horas pela anestesista que estava numa cirurgia, com dilatação ou sem dilatação esperámos todas...).
Custou-me muito verbalizar que afinal queria epidural, mais uma derrota, mas custou-me ainda mais perceber que não ia existir alívio tão cedo. Ainda estava a recuperar deste momento quando percebo que afinal não vão deixar entrar a terapeuta. Mais um balde de água fria. Era eu, o Pedro e aquelas dores insuportáveis.
É difícil descrever as horas que se seguiram. O meu descontrole, o esforço do Pedro para me fazer acalmar, para ganharmos juntos o controle da situação. Conta ele que a primeira hora foi gasta a fazer-me aguentar as contracções sem gritar. A parteira aparecia de vez em quando, "Então, o que é isso? Já passou por isto outras vezes, vamos lá acalmar!" "Tem que aguentar querida!". Foi falando também com o Pedro, disse-lhe que me enfiasse debaixo do duche, sentada na bola de pilates, que era sempre um grande alívio. Na verdade o único grande alívio era já não estar só, e ver no Pedro a segurança e o amor que precisava para aguentar aquele suplício. Sei que houve alturas em que achei que ia morrer, eu e o bebé, tive muito medo, mas aquela presença forte e amorosa foi a minha âncora.
Lá para a uma da manhã (ou seja, após cinco horas de total agonia) apareceu a anestesista. Já nem liguei ao seu trato impessoal e à sua arrogância, só queria a porcaria da droga para ver se conseguia descansar um pouco e ganhar forças. Assim foi. Dormi uns 40 minutos, acordei com uma contracção muito forte e reconheci o momento, "Pedro, chama a parteira, o Benjamim vem aí!". E assim, em 40 minutos, a dilatação estava totalmente feita. O período de expulsão foi rápido, apenas dificultado pelos efeitos da epidural, tive que me concentrar bastante para perceber onde tinha que fazer força porque não sentia o meu corpo. A parteira foi excelente nesta fase, fizemos uma bela equipa os três. Pela primeira vez, e de comum acordo decidimos não fazer episiotomia, até porque, (depois de três partos em que fui cortada sem alguém sequer perguntar se queria) dizia a parteira "se tivesse que cortar nem saberia onde...".
Fiz três vezes força a sério e o nosso Benjamim saiu para mundo! Tranquilo, perfeito, forte! Ficou em cima da minha barriga, ainda ligados até o cordão deixar de pulsar. Trepou por mim acima, procurou a mama e sem esforço algum, mamou até ficar satisfeito. Toda aquela alegria mas dentro de mim permanecia a sensação de ter falhado, mesmo com o Pedro a dizer "Falhaste?! Estás louca?! Atravessaste todas as dificuldades e trouxeste o teu filho ao mundo. Hás-de-me explicar onde está a falha!". Ele tinha razão e hoje sei disso. Mas levei alguns meses a recuperar do que eu achava ser a minha fraqueza.
Ao escrever este texto, tornou-se ainda mais claro que, com apenas algumas alterações de postura e protocolo na maternidade, o parto do meu quarto filho teria sido totalmente diferente, para melhor. Sofri desnecessariamente, porque a ciência "é espectacular" mas tudo o que a ciência teve para me oferecer durante cinco horas de agonia foi um "vai ter que aguentar!" Por isso logo no início do texto disse que fui ingénua. Fui ingénua porque quis casar dois mundos que ainda não cruzam, salvo raras excepções. Para mim, tornou-se essencial defender a luta pela humanização dos partos em contexto hospitalar, a defesa dos partos em casa, na água, onde as mulheres quiserem! Os médicos, que na sua maioria defende a sua presença nos partos como absolutamente necessária, têm, mesmo nas maternidades, a utilidade de uma ambulância no backstage de um concerto, só entram em acção se algo correr muito mal. Então, a luta travada é pelo poder e não pelo bem estar das mulheres, dos seus bebés e das respectivas famílias. Isto é triste e é pequenino. Já parir, é o milagre dos milagres e somos nós, mulheres, que o fazemos acontecer.
E nunca deixem que vos digam o contrário.

