Tenho uma gata preta chamada Mimi. É a mais velha dos cinco gatos que vivem connosco. A Mimi tem um comportamento que me perturba e me fascina, a tal ponto que tenho gasto muitas horas a tentar, mais do que entendê-lo, perceber porque é que o comportamento dela mexe tanto comigo.
Assim que o tempo aquece a Mimi vai progressivamente dando passeios mais longos até que, lá para o pino do Verão, pode ficar fora de casa vários dias, aparecendo de vez em quando apenas para comer. Uma vez que a fome é saciada, sai rapidamente pelo quintal e desaparece. Estas ausências têm consequências. Os outros gatos lá de casa passam a ocupar os lugares "exclusivos" da matriarca Mimi e, parece-me a mim, reorganizam-se como grupo, estabelecendo novas hierarquias e regras. Ao mesmo tempo que isto acontece, a Mimi vai-se tornando cada vez mais "uma estranha". Entra em casa a medo, perdendo toda a sua pose de líder, chegando por vezes a ser atacada pelos outros que parecem deixar de a reconhecer. Mesmo connosco humanos, a Mimi altera totalmente o seu comportamento, não deixando sequer que lhe toquemos.
Terminado o Verão e à medida que a temperatura vai descendo, a Mimi vai aparecendo com mais frequência. Começa por vir comer todos os dias ao final do dia, entrando e saindo sorrateiramente. Passado algum tempo surge também pela manhã, rosnando aos outros gatos, iniciando assim a sua retoma do poder matriarcal. Assim que o frio aperta, as vindas a casa deixam de ser só para comer e passam a incluir sestas debaixo da mesa da cozinha. Nesta fase, os outros gatos já não tentam atacá-la, passam ao longe afastando-se assim que ela começa a rosnar. Mais uns dias e a Mimi começa a aventurar-se por outras divisões da casa, ainda fugidia mas já permitindo festas. Quando nós humanos "abusamos" nas festas ou tentamos pegar-lhe ao colo, volta a fugir. Mas lentamente, dia após dia, a Mimi volta a ser senhora da casa, a deitar-se ao meu lado no sofá perto da lareira, a dormir connosco aos pés da cama, a pedir festas com o seu miar de passarinho. Quando a Primavera regressa e o calor se instala, todo este ciclo recomeça...
A liberdade em pleno. É isto que a Mimi e o seu ciclo me mostram. A Mimi segue os seus instintos e por eles, abdica de tudo, num total desapego ao conforto, ao poder e à família de que de faz parte. Quando regressa, tudo está por conquistar e ela, pacientemente, passo a passo, reconquista cada pedaço da sua vida doméstica, apenas para voltar a abdicar de tudo quando a Natureza a chama.
Seria eu capaz de abdicar de tudo o que conquistei para seguir a voz da minha liberdade? Teria eu a humildade de regressar e a partir do zero voltar a construir o meu lugar? A Mimi deixa-me a pensar na quantidade de vezes que me travo por receio de perder, sem me aperceber que o essencial nunca fica perdido e que tudo o resto pode ser reconquistado, com humildade e paciência. A Mimi representa a liberdade, a humildade e o desapego que chocam de frente com o meu medo, o meu orgulho e o meu apego. É este o nosso espelho, e por isso eu receio tanto por ela, porque na realidade receio por mim, por tudo o que ainda me trava e me impede de ser plenamente livre.


