sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Mimi

Tenho uma gata preta chamada Mimi. É a mais velha dos cinco gatos que vivem connosco. A Mimi tem um comportamento que me perturba e me fascina, a tal ponto que tenho gasto muitas horas a tentar, mais do que entendê-lo, perceber porque é que o comportamento dela mexe tanto comigo. 

Assim que o tempo aquece a Mimi vai progressivamente dando passeios mais longos até que, lá para o pino do Verão, pode ficar fora de casa vários dias, aparecendo de vez em quando apenas para comer. Uma vez que a fome é saciada, sai rapidamente pelo quintal e desaparece. Estas ausências têm consequências. Os outros gatos lá de casa passam a ocupar os lugares "exclusivos" da matriarca Mimi e, parece-me a mim, reorganizam-se como grupo, estabelecendo novas hierarquias e regras. Ao mesmo tempo que isto acontece, a Mimi vai-se tornando cada vez mais "uma estranha". Entra em casa a medo, perdendo toda a sua pose de líder, chegando por vezes a ser atacada pelos outros que parecem deixar de a reconhecer. Mesmo connosco humanos, a Mimi altera totalmente o seu comportamento, não deixando sequer que lhe toquemos.

Terminado o Verão e à medida que a temperatura vai descendo, a Mimi vai aparecendo com mais frequência. Começa por vir comer todos os dias ao final do dia, entrando e saindo sorrateiramente. Passado algum tempo surge também pela manhã, rosnando aos outros gatos, iniciando assim a sua retoma do poder matriarcal. Assim que o frio aperta, as vindas a casa deixam de ser só para comer e passam a incluir sestas debaixo da mesa da cozinha. Nesta fase, os outros gatos já não tentam atacá-la, passam ao longe afastando-se assim que ela começa a rosnar. Mais uns dias e a Mimi começa a aventurar-se por outras divisões da casa, ainda fugidia mas já permitindo festas. Quando nós humanos "abusamos" nas festas ou tentamos pegar-lhe ao colo, volta a fugir. Mas lentamente, dia após dia, a Mimi volta a ser senhora da casa, a deitar-se ao meu lado no sofá perto da lareira, a dormir connosco aos pés da cama, a pedir festas com o seu miar de passarinho. Quando a Primavera regressa e o calor se instala, todo este ciclo recomeça...

A liberdade em pleno. É isto que a Mimi e o seu ciclo me mostram. A Mimi segue os seus instintos e por eles, abdica de tudo, num total desapego ao conforto, ao poder e à família de que de faz parte. Quando regressa, tudo está por conquistar e ela, pacientemente, passo a passo, reconquista cada pedaço da sua vida doméstica, apenas para voltar a abdicar de tudo quando a Natureza a chama. 

Seria eu capaz de abdicar de tudo o que conquistei para seguir a voz da minha liberdade? Teria eu a humildade de regressar e a partir do zero voltar a construir o meu lugar? A Mimi deixa-me a pensar na quantidade de vezes que me travo por receio de perder, sem me aperceber que o essencial nunca fica perdido e que tudo o resto pode ser reconquistado, com humildade e paciência. A Mimi representa a liberdade, a humildade e o desapego que chocam de frente com o meu medo, o meu orgulho e o meu apego. É este o nosso espelho, e por isso eu receio tanto por ela, porque na realidade receio por mim, por tudo o que ainda me trava e me impede de ser plenamente livre.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Aos meus guerreiros

Não é fácil ser homem. Parece-me que, mesmo tudo o que apontamos vulgarmente como facilidades, "presentes" oferecidos aos homens nesta vivência patriarcal, são na verdade grandes armadilhas que prendem a maioria dos homens a uma existência estagnada, na qual o que é nunca chega a ser realmente. 

Na opressão, as mulheres apuraram estratégias de luta e libertação. Ofuscados no engano do poder e da força, os homens deixaram-se ficar num conforto dormente, empurrando medos, anseios e desejos para um fundo tão fundo que se torna tão inatingível como as lágrimas que aprenderam a conter. Assumir quem realmente são, libertar-se dos papéis e comportamentos estereotipados, arriscar ser alvo de crítica, passar a fazer parte duma qualquer minoria e não da maioria, são ideias que afastam grande parte dos homens de realizar qualquer tipo de busca interna, só por medo do que possam encontrar nos confins de si mesmos. 

Mas não é assim com todos os homens. Existem por aí verdadeiros guerreiros que arriscam sair da imensa zona de conforto criada à sua volta, dessa gaiola dourada infantilizada e embrutecida. Existem por aí homens com "H" grande à procura de si mesmos, num compromisso honrado e honesto. Assisto emocionada a estes processos masculinos, tão belos quanto dolorosos. A cada passo, a cada libertação, vejo surgir a verdadeira força, o verdadeiro poder masculino que nunca está onde nos disseram que estaria. Está na lágrima, no abraço sentido, no sorriso que ainda guarda em si a criança, na simplicidade e no pragmatismo de pensamento e de acção. Está no assumir da fraqueza e da fragilidade, na sensibilidade vivida sem freios. A força do homem está na liberdade interior, na consciência que a liberdade que lhe foi oferecida é uma ilusão. 

Tenho a honra de ter alguns destes guerreiros na minha vida. E se as mulheres são para mim uma fonte constante de conhecimento e sabedoria, estes guerreiros elevaram o masculino dentro de mim, porque me mostraram a sua verdade. Foi com estes guerreiros que aprendi sobre a ilusão da dualidade, porque são eles que me mostram constantemente que somos tudo e não apenas partes, metades isoladas. 

A todos eles, e especialmente ao guerreiro que tenho ao meu lado há 16 anos, o meu profundo agradecimento. Admiro-vos muito e tenho cada vez mais consciência da importância dos caminhos que têm desbravado e que ajudarão outros a caminhar. Meus mestres, meus irmãos, o meu eterno amor. 



Fotografia Rute Violante

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Histórias

Ter um filho é acto de fé e a gravidez é o tempo em que essa fé se expressa de forma mais intensa. Amamos alguém que não vemos, acreditamos que tudo correrá bem sem fazermos a mínima ideia do que irá acontecer. A fé traz esperança, alegria e  a tranquilidade de quem confia apenas no Amor. É esta a recordação que guardamos da gravidez, esse estado abençoado em que fé nos basta e nos faz resplandecer. 

Mas uma gravidez tem dentro de si muitas horas, muitos dias e muitas noites. Tem dentro de si muitas crises de fé. Dúvidas, tristezas, desesperos. E alguma solidão... Estes sentimentos trazem desconforto, ainda mais a uma grávida, que sente sempre alguma pressão para se manter num "estado de graça". Salvo em casos em que a tristeza toma conta de tudo, estes sentimentos "menos bons" são naturais e fazem parte deste processo grandioso. Aliás, sem eles, não seria um processo grandioso!

Nós humanos construímos histórias sobre tudo. Quanto mais grandiosa a história, mais caímos na tentação de "apagar" aquilo que, tradicionalmente consideramos negativo, mesquinho ou sujo. As grandes histórias são "limpas". E por isso não servem para nada.

As verdadeiras histórias, aquelas que cumprem o seu papel, são as que nos mostram as várias faces de um processo. São as que tratam as emoções humanas sem lhes atribuir julgamentos, na consciência que todas elas contribuem para o "final feliz" que esperamos. As verdadeiras histórias aproximam-nos uns dos outros, tornam-nos a todos heróis.

Nós mulheres, temos que reaprender a contar histórias umas às outras. Histórias que nos aproximem e nos curem. Histórias de verdade.



Fotografia Rute Violante