sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Histórias

Ter um filho é acto de fé e a gravidez é o tempo em que essa fé se expressa de forma mais intensa. Amamos alguém que não vemos, acreditamos que tudo correrá bem sem fazermos a mínima ideia do que irá acontecer. A fé traz esperança, alegria e  a tranquilidade de quem confia apenas no Amor. É esta a recordação que guardamos da gravidez, esse estado abençoado em que fé nos basta e nos faz resplandecer. 

Mas uma gravidez tem dentro de si muitas horas, muitos dias e muitas noites. Tem dentro de si muitas crises de fé. Dúvidas, tristezas, desesperos. E alguma solidão... Estes sentimentos trazem desconforto, ainda mais a uma grávida, que sente sempre alguma pressão para se manter num "estado de graça". Salvo em casos em que a tristeza toma conta de tudo, estes sentimentos "menos bons" são naturais e fazem parte deste processo grandioso. Aliás, sem eles, não seria um processo grandioso!

Nós humanos construímos histórias sobre tudo. Quanto mais grandiosa a história, mais caímos na tentação de "apagar" aquilo que, tradicionalmente consideramos negativo, mesquinho ou sujo. As grandes histórias são "limpas". E por isso não servem para nada.

As verdadeiras histórias, aquelas que cumprem o seu papel, são as que nos mostram as várias faces de um processo. São as que tratam as emoções humanas sem lhes atribuir julgamentos, na consciência que todas elas contribuem para o "final feliz" que esperamos. As verdadeiras histórias aproximam-nos uns dos outros, tornam-nos a todos heróis.

Nós mulheres, temos que reaprender a contar histórias umas às outras. Histórias que nos aproximem e nos curem. Histórias de verdade.



Fotografia Rute Violante



Nenhum comentário:

Postar um comentário