sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Tens dogmas para a troca?

No tempo em que eu fui bebé, diziam os dogmas modernos de então que os bebés deviam ser disciplinados de imediato, cumprindo horários de amamentação e sonos. Que muito cedo deviam ter o seu espaço para ganharem autonomia e não se tornarem medrosos ou demasiadamente dependentes. "A mãe não é escrava do bebé", disse o médico à minha mãe quando ela se queixou da minha indisciplina de recém-nascida com a hora de comer. A minha mãe seguiu os conselhos do Dr. e eu tornei-me, ao que parece, um bebé muito disciplinado, depois de umas quantas noites a berrar. À minha avó tudo aquilo lhe parecia absurdo porque os dogmas do tempo dela diziam que os bebés deviam ser consolados ao colo sempre que choravam porque muito choro causava hérnias e outras coisas perigosas.
Se analisarmos os contextos da minha mãe da minha avó, estas diferentes abordagens encaixam perfeitamente nos "seus tempos". Cada tempo com a sua verdade.

Depois de três filhos tornou-se bastante óbvio para mim que não há verdades universais ou dogmas nesta coisa de cuidar e educar. Cada um de nós é um ser único, desde o primeiro momento. Todos os bebés precisam de ser alimentados, limpos e nutridos com amor e calor humano. É a única coisa comum a todos, porque mesmo essas necessidades básicas são expressas de forma única por cada pequeno ser.  

Tal como os bebés, também cada mãe é um ser único e impermanente. Eu não sou a mesma pessoa que era quando fui mãe pela primeira vez aos 29 anos. Muita coisa em mim mudou. Além do mais, cada filho que chega traz consigo o dom de mexer com a estrutura dos pais, provocando reacções, e se os pais forem espertos, mudança e evolução. Assim, também somos mães e pais diferentes para filhos diferentes. Por isso, não compreendo em relação a este assunto outra verdade universal que não a do Amor. Dogmas não cabem aqui. No entanto, eles continuam por aí. Em 2016...

Vejamos o exemplo da amamentação. Compreendo que se sensibilize as mães para a importância da amamentação mas não compreendo que se force essa situação para lá do razoável, que é como quem diz, à custa da culpabilização de mães inseguras com as hormonas aos saltos. Assisti a várias cenas destas na maternidade, sobretudo com mães de primeira viagem. Parece-me que o bebé precisa mais de uma mãe segura, confortável e feliz do que de leite materno. Mas o dogma da amamentação não acaba na maternidade nem se limita aos profissionais de saúde. A cena "new age" (à falta de melhor designação), da qual se esperaria (ou esperava eu) uma abordagem anti-dogma, faz justamente o contrário. Quem não andar com o puto num pano a mamar até aos dois anos não é mãe que se apresente. Todos os meus filhos mamaram. Acontece que lá para os 3, 4 meses do bebé, o meu leite abundante deixa de o ser. Sempre me pareceu que esta reacção do meu corpo seguia um desejo interno de me tornar independente, de voltar a ter as minhas mamas para mim e para outras funções que não as da maternidade. Culpei-me muitas vezes por isto, muito à conta dos dogmas e dos franzires de sobrancelha, "secou, como assim?". Depois percebi que esta "estratégia" do meu corpo me tornava melhor mãe. Que essa libertação da amamentação me devolvia de alguma forma à minha individualidade e que isso parece ser determinante para mim, mas sobretudo, determinante para o sucesso de todo um processo familiar bastante complexo que é chegada e a integração de um novo bebé na família. Não sei como vai ser da próxima vez e não estou nada preocupada com isso. Sou um ser humano e tenho as minhas limitações. E é nessa condição que me torno mãe, aliás é mesmo essa condição que me permite ser mãe. Não perfeita, mas a melhor que consigo ser. 










quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Saudades do período, como assim?

Pela primeira vez tenho saudades da minha menstruação. Foi preciso chegar à quarta gravidez para isto acontecer. 
Mas como assim? 
Desde o nascimento do meu terceiro filho que me dediquei, com concentração e afinco, a estudar o meu ciclo menstrual. Abandonei os métodos contraceptivos hormonais e, pela primeira vez, escutei o meu ciclo para através dele perceber mais sobre mim e sobre o que é isto de ser mulher. Abandonei os pensos e os tampões e passei a utilizar o copo menstrual que me trouxe uma relação mais profunda e saudável com o meu sangue. 
Durante a minha terceira gravidez chegou-me muita informação sobre a menstruação e o ciclo menstrual, e de como os condicionamentos sociais e culturais da nossa sociedade nos afastam de uma relação saudável com os nossos ciclos. O facto de ter duas filhas a aproximarem-se rapidamente da adolescência, aumentou ainda mais o meu interesse porque senti que lhes tinha que passar outro tipo de informação e de sentir sobre a menstruação. Incomoda-me a ladaínha que nós mulheres vamos passando umas às outras, realçando os incómodos da menstruação ao mesmo tempo que reforçamos a necessidade de agirmos sempre como se ela não existisse, como se fosse uma fraqueza a esconder para estarmos sempre operacionais, como os homens. 
Nós mulheres, tal como a Lua, funcionamos por ciclos. Cada fase desse ciclo tem características próprias, e ao ignorá-las, basicamente fugimos da nossa mais íntima natureza. Fugimos de nós próprias. Não foi sempre assim e não é assim em todos os lugares do mundo. Mas aqui e agora é. Já o disse e volto a dizer, sou uma feminista convicta. No entanto, para mim o feminismo representa a luta pela igualdade de género em termos cívicos. Exactamente por ser feminista, defendo que é um direito das mulheres viverem a sua condição de mulheres, em pleno. E isso não é possível sem esta consciência do ciclo, até porque cada mulher que se permite conhecer e amar o seu ciclo será forçosamente uma mulher mais sábia, mas sobretudo, mais feliz. E falo por experiência própria.
Nos quase quatro anos que separaram a minha terceira gravidez da actual, o estudo do meu ciclo menstrual, a abertura a outras perspectivas sobre a menstruação e o "maldito" TPM mudaram-me profundamente. Ganhei uma fonte inesgotável auto-conhecimento, ganhei qualidade de vida e, consequentemente, dei mais qualidade às minhas relações. Tal como observamos nas fases lunares, também o ciclo de cada mulher encerra fases de expansão e de recolhimento. Cada ciclo representa um processo de nascimento, crescimento, envelhecimento, morte e renascimento. A inconstância atribuída às mulheres resulta da vivência deste ciclo e das diferentes energias que cada fase potencia. Ao tomar consciência disto, a mulher passa a poder utilizar essas energias a seu favor, ou seja, torna-se capaz de materializar todo este potencial na sua vida. 
 A única e verdadeira dificuldade que encontrei no meu estudo vem do exterior. A nossa sociedade funciona num pressuposto de constância absurdamente ilusório (nem os homens possuem tal constância). A nossa organização sócio-económica é implacável e artificial e desrespeita a nossa natureza. É um facto, não apenas para as mulheres mas para Tod@s! Mas há muito que podemos fazer. Eu comecei por "contaminar" o meu companheiro com o que ia aprendendo. Ao partilhar com ele o meu estudo, também ele recebeu conhecimento e ferramentas para lidar com o tal "mistério feminino". Assim, reconhecendo ele também as minhas fases, foi possível ajustarmos alguns aspectos da vida quotidiana, nomeadamente o ser-me mais fácil isolar-me um pouco ou ter algum tempo só para mim quando o ciclo me pede recolhimento. Julgo que para as mulheres que estão numa relação, esta partilha é essencial. 
No que diz respeito ao trabalho, ambiente no qual essa exigência de constância se revela com mais intensidade, não sendo fácil, pode ser possível planear determinadas tarefas e actividades para momentos que julgamos mais propícios. Nem sempre isto é possível e muitas vezes é mesmo impossível. Cabe às mulheres que retornam à consciência e que gozam de alguma liberdade laboral introduzir mudanças e estimular a reflexão colectiva para que o mundo vá mudando de forma positiva. No entanto, o que observo na maioria das mulheres cujas funções poderiam permitir a introdução de mudanças a este e a outros níveis, é que actuam numa lógica masculina, buscando o "sucesso" e o "poder" numa corrida desenfreada na qual todos estes aspectos do feminino são abafados. 
Temos ainda um longo caminho mas, se olharmos com atenção, veremos que cada vez mais mulheres buscam o retorno a este equilíbrio perdido. Por isso é para mim tão importante educar as minhas filhas noutra lógica que não a vigente. É o meu plano pessoal para mudar o mundo, um plano para cem anos!

confissões de uma feminista #1

Quando os senhores das operadoras me batem à porta e estou sem tempo ou paciência, faço cara de parva e digo: "O meu marido é que percebe dessas coisas..."

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A grávida velha

Entrei no consultório e o médico disse à assistente: - "Esta senhora é uma grávida velha que vem buscar umas credenciais". Não contive uma enorme gargalhada que o médico pareceu ignorar e que deixou a assistente ainda mais envergonhada do que já estava. Quando saí do Centro de Saúde vinha a pensar que deveria ter reagido de outra forma, devia ter mostrado ao Sr. Dr. que aquilo não se diz. Assim talvez não repetisse a "gracinha" com outras mulheres. Sim, era isso que era "suposto" ter acontecido. Verdadeiramente interessante foi descobrir que a questão central deste episódio não era a insensibilidade tacanha do médico ou a passividade envergonhada da assistente mas o facto daquela frase não me ter suscitado qualquer outra resposta a não ser uma gargalhada. Entendi a dureza das palavras mas não as senti dentro de mim, não me tocaram, pura e simplesmente. Não me senti velha, nem ridícula, nem diminuída ou humilhada. Não me enchi de raiva pelo médico, porque me pareceu ele velho e diminuído na sua insensibilidade. Soltei mentalmente um grande "Uau!" e lembrei-me que alguém muito querido me tinha dito um dia, "a mudança interior acontece silenciosamente. Quando deres por ti já mudaste!"

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Um plano para 100 anos

Parece que há um provérbio chinês (ou será um provérbio do facebook? Hoje em dia nunca sabemos...) que diz qualquer coisa assim: "Se o seu plano for para um ano, plante arroz! Se o seu plano for para 10 anos, plante árvores! Se o seu plano for para 100 anos, eduque pessoas!" Eu cá nunca gostei muitos de planos, o verbo planear desfaz-se demasiadas vezes perante a realidade. Planear trabalho ou tarefas faz-me sentido, planear a vida nem por isso. Acontece que chego aos 42 anos com uma casa, um marido, três filhos, cinco gatos, uma cadela, uma tartaruga, um jardim e um vazio enorme sobre a direcção da minha vida profissional. Um vazio que me levou a um moderno "burnout", traduzido numa baixa de quase um mês, recheada a ansiolíticos e afins. Quando o descanso me permitiu voltar a reflectir com clareza, percebi que não fazia a mínima ideia do que fazer. Se calhar por ser Verão, essa enorme página em branco que constantemente me surgia não me inquietou muito. Estava segura que a leveza das férias me iria trazer algum sinal, alguma pista. Por outro lado, tornava-se cada vez mais claro que o que me define pouco tem a ver com o que faço para por comida na mesa. Mas o que me define afinal? Um dia atrás do outro e os meus pensamentos eram subitamente interrompidos ora por uma ligeira náusea, ora por uma sonolência desmedida, ora por dores e moinhas já bem conhecidas. A todas as minhas questões e inquietações, o Universo devolve-me uma só resposta: o meu quarto filho vem aí. O meu plano afinal está traçado. É longo e ambicioso mas não o trocava por nenhum outro!