No tempo em que eu fui bebé, diziam os dogmas modernos de então que os bebés deviam ser disciplinados de imediato, cumprindo horários de amamentação e sonos. Que muito cedo deviam ter o seu espaço para ganharem autonomia e não se tornarem medrosos ou demasiadamente dependentes. "A mãe não é escrava do bebé", disse o médico à minha mãe quando ela se queixou da minha indisciplina de recém-nascida com a hora de comer. A minha mãe seguiu os conselhos do Dr. e eu tornei-me, ao que parece, um bebé muito disciplinado, depois de umas quantas noites a berrar. À minha avó tudo aquilo lhe parecia absurdo porque os dogmas do tempo dela diziam que os bebés deviam ser consolados ao colo sempre que choravam porque muito choro causava hérnias e outras coisas perigosas.
Se analisarmos os contextos da minha mãe da minha avó, estas diferentes abordagens encaixam perfeitamente nos "seus tempos". Cada tempo com a sua verdade.
Depois de três filhos tornou-se bastante óbvio para mim que não há verdades universais ou dogmas nesta coisa de cuidar e educar. Cada um de nós é um ser único, desde o primeiro momento. Todos os bebés precisam de ser alimentados, limpos e nutridos com amor e calor humano. É a única coisa comum a todos, porque mesmo essas necessidades básicas são expressas de forma única por cada pequeno ser.
Tal como os bebés, também cada mãe é um ser único e impermanente. Eu não sou a mesma pessoa que era quando fui mãe pela primeira vez aos 29 anos. Muita coisa em mim mudou. Além do mais, cada filho que chega traz consigo o dom de mexer com a estrutura dos pais, provocando reacções, e se os pais forem espertos, mudança e evolução. Assim, também somos mães e pais diferentes para filhos diferentes. Por isso, não compreendo em relação a este assunto outra verdade universal que não a do Amor. Dogmas não cabem aqui. No entanto, eles continuam por aí. Em 2016...
Vejamos o exemplo da amamentação. Compreendo que se sensibilize as mães para a importância da amamentação mas não compreendo que se force essa situação para lá do razoável, que é como quem diz, à custa da culpabilização de mães inseguras com as hormonas aos saltos. Assisti a várias cenas destas na maternidade, sobretudo com mães de primeira viagem. Parece-me que o bebé precisa mais de uma mãe segura, confortável e feliz do que de leite materno. Mas o dogma da amamentação não acaba na maternidade nem se limita aos profissionais de saúde. A cena "new age" (à falta de melhor designação), da qual se esperaria (ou esperava eu) uma abordagem anti-dogma, faz justamente o contrário. Quem não andar com o puto num pano a mamar até aos dois anos não é mãe que se apresente. Todos os meus filhos mamaram. Acontece que lá para os 3, 4 meses do bebé, o meu leite abundante deixa de o ser. Sempre me pareceu que esta reacção do meu corpo seguia um desejo interno de me tornar independente, de voltar a ter as minhas mamas para mim e para outras funções que não as da maternidade. Culpei-me muitas vezes por isto, muito à conta dos dogmas e dos franzires de sobrancelha, "secou, como assim?". Depois percebi que esta "estratégia" do meu corpo me tornava melhor mãe. Que essa libertação da amamentação me devolvia de alguma forma à minha individualidade e que isso parece ser determinante para mim, mas sobretudo, determinante para o sucesso de todo um processo familiar bastante complexo que é chegada e a integração de um novo bebé na família. Não sei como vai ser da próxima vez e não estou nada preocupada com isso. Sou um ser humano e tenho as minhas limitações. E é nessa condição que me torno mãe, aliás é mesmo essa condição que me permite ser mãe. Não perfeita, mas a melhor que consigo ser.
Se analisarmos os contextos da minha mãe da minha avó, estas diferentes abordagens encaixam perfeitamente nos "seus tempos". Cada tempo com a sua verdade.
Depois de três filhos tornou-se bastante óbvio para mim que não há verdades universais ou dogmas nesta coisa de cuidar e educar. Cada um de nós é um ser único, desde o primeiro momento. Todos os bebés precisam de ser alimentados, limpos e nutridos com amor e calor humano. É a única coisa comum a todos, porque mesmo essas necessidades básicas são expressas de forma única por cada pequeno ser.
Tal como os bebés, também cada mãe é um ser único e impermanente. Eu não sou a mesma pessoa que era quando fui mãe pela primeira vez aos 29 anos. Muita coisa em mim mudou. Além do mais, cada filho que chega traz consigo o dom de mexer com a estrutura dos pais, provocando reacções, e se os pais forem espertos, mudança e evolução. Assim, também somos mães e pais diferentes para filhos diferentes. Por isso, não compreendo em relação a este assunto outra verdade universal que não a do Amor. Dogmas não cabem aqui. No entanto, eles continuam por aí. Em 2016...
Vejamos o exemplo da amamentação. Compreendo que se sensibilize as mães para a importância da amamentação mas não compreendo que se force essa situação para lá do razoável, que é como quem diz, à custa da culpabilização de mães inseguras com as hormonas aos saltos. Assisti a várias cenas destas na maternidade, sobretudo com mães de primeira viagem. Parece-me que o bebé precisa mais de uma mãe segura, confortável e feliz do que de leite materno. Mas o dogma da amamentação não acaba na maternidade nem se limita aos profissionais de saúde. A cena "new age" (à falta de melhor designação), da qual se esperaria (ou esperava eu) uma abordagem anti-dogma, faz justamente o contrário. Quem não andar com o puto num pano a mamar até aos dois anos não é mãe que se apresente. Todos os meus filhos mamaram. Acontece que lá para os 3, 4 meses do bebé, o meu leite abundante deixa de o ser. Sempre me pareceu que esta reacção do meu corpo seguia um desejo interno de me tornar independente, de voltar a ter as minhas mamas para mim e para outras funções que não as da maternidade. Culpei-me muitas vezes por isto, muito à conta dos dogmas e dos franzires de sobrancelha, "secou, como assim?". Depois percebi que esta "estratégia" do meu corpo me tornava melhor mãe. Que essa libertação da amamentação me devolvia de alguma forma à minha individualidade e que isso parece ser determinante para mim, mas sobretudo, determinante para o sucesso de todo um processo familiar bastante complexo que é chegada e a integração de um novo bebé na família. Não sei como vai ser da próxima vez e não estou nada preocupada com isso. Sou um ser humano e tenho as minhas limitações. E é nessa condição que me torno mãe, aliás é mesmo essa condição que me permite ser mãe. Não perfeita, mas a melhor que consigo ser.