Pela primeira vez tenho saudades da minha menstruação. Foi preciso chegar à quarta gravidez para isto acontecer.
Mas como assim?
Desde o nascimento do meu terceiro filho que me dediquei, com concentração e afinco, a estudar o meu ciclo menstrual. Abandonei os métodos contraceptivos hormonais e, pela primeira vez, escutei o meu ciclo para através dele perceber mais sobre mim e sobre o que é isto de ser mulher. Abandonei os pensos e os tampões e passei a utilizar o copo menstrual que me trouxe uma relação mais profunda e saudável com o meu sangue.
Durante a minha terceira gravidez chegou-me muita informação sobre a menstruação e o ciclo menstrual, e de como os condicionamentos sociais e culturais da nossa sociedade nos afastam de uma relação saudável com os nossos ciclos. O facto de ter duas filhas a aproximarem-se rapidamente da adolescência, aumentou ainda mais o meu interesse porque senti que lhes tinha que passar outro tipo de informação e de sentir sobre a menstruação. Incomoda-me a ladaínha que nós mulheres vamos passando umas às outras, realçando os incómodos da menstruação ao mesmo tempo que reforçamos a necessidade de agirmos sempre como se ela não existisse, como se fosse uma fraqueza a esconder para estarmos sempre operacionais, como os homens.
Nós mulheres, tal como a Lua, funcionamos por ciclos. Cada fase desse ciclo tem características próprias, e ao ignorá-las, basicamente fugimos da nossa mais íntima natureza. Fugimos de nós próprias. Não foi sempre assim e não é assim em todos os lugares do mundo. Mas aqui e agora é. Já o disse e volto a dizer, sou uma feminista convicta. No entanto, para mim o feminismo representa a luta pela igualdade de género em termos cívicos. Exactamente por ser feminista, defendo que é um direito das mulheres viverem a sua condição de mulheres, em pleno. E isso não é possível sem esta consciência do ciclo, até porque cada mulher que se permite conhecer e amar o seu ciclo será forçosamente uma mulher mais sábia, mas sobretudo, mais feliz. E falo por experiência própria.
Nos quase quatro anos que separaram a minha terceira gravidez da actual, o estudo do meu ciclo menstrual, a abertura a outras perspectivas sobre a menstruação e o "maldito" TPM mudaram-me profundamente. Ganhei uma fonte inesgotável auto-conhecimento, ganhei qualidade de vida e, consequentemente, dei mais qualidade às minhas relações.
Tal como observamos nas fases lunares, também o ciclo de cada mulher encerra fases de expansão e de recolhimento. Cada ciclo representa um processo de nascimento, crescimento, envelhecimento, morte e renascimento. A inconstância atribuída às mulheres resulta da vivência deste ciclo e das diferentes energias que cada fase potencia. Ao tomar consciência disto, a mulher passa a poder utilizar essas energias a seu favor, ou seja, torna-se capaz de materializar todo este potencial na sua vida.
A única e verdadeira dificuldade que encontrei no meu estudo vem do exterior. A nossa sociedade funciona num pressuposto de constância absurdamente ilusório (nem os homens possuem tal constância). A nossa organização sócio-económica é implacável e artificial e desrespeita a nossa natureza. É um facto, não apenas para as mulheres mas para Tod@s! Mas há muito que podemos fazer. Eu comecei por "contaminar" o meu companheiro com o que ia aprendendo. Ao partilhar com ele o meu estudo, também ele recebeu conhecimento e ferramentas para lidar com o tal "mistério feminino". Assim, reconhecendo ele também as minhas fases, foi possível ajustarmos alguns aspectos da vida quotidiana, nomeadamente o ser-me mais fácil isolar-me um pouco ou ter algum tempo só para mim quando o ciclo me pede recolhimento. Julgo que para as mulheres que estão numa relação, esta partilha é essencial.
No que diz respeito ao trabalho, ambiente no qual essa exigência de constância se revela com mais intensidade, não sendo fácil, pode ser possível planear determinadas tarefas e actividades para momentos que julgamos mais propícios. Nem sempre isto é possível e muitas vezes é mesmo impossível. Cabe às mulheres que retornam à consciência e que gozam de alguma liberdade laboral introduzir mudanças e estimular a reflexão colectiva para que o mundo vá mudando de forma positiva. No entanto, o que observo na maioria das mulheres cujas funções poderiam permitir a introdução de mudanças a este e a outros níveis, é que actuam numa lógica masculina, buscando o "sucesso" e o "poder" numa corrida desenfreada na qual todos estes aspectos do feminino são abafados.
Temos ainda um longo caminho mas, se olharmos com atenção, veremos que cada vez mais mulheres buscam o retorno a este equilíbrio perdido. Por isso é para mim tão importante educar as minhas filhas noutra lógica que não a vigente. É o meu plano pessoal para mudar o mundo, um plano para cem anos!
<3
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